Eu disse por telefone:
"pai, vou me separar mesmo, no papel (porque fisicamente já estava
separada há quase 1 ano). Não deu certo, fazer o quê?" Eu estava há 8 mil
quilômetros de distância e ele me disse "então vem embora pra cá rápido,
você não está segura aí sozinha agora que decidiu se separar." E eu
escutei, né?! Intuição, conselho de pai, sei lá. Fiquei neurótica. Lembrei que
o marido-agora-quase-ex tinha uma arma (que americano sulista não tem uma
arma?). Lembrei que uma vez ele levantou o tom de voz pra mim (e foi por isso que
pedi para que ele saísse do nosso apartamento... e ele saiu... chorando. E daí
começou nosso processo de separação oficial, tipo casas separadas). Ele sempre
respeitou minhas vontades e decisões. Mas o tal do conselho de pai me deixou
neurótica, dei entrada nos papéis, pus um alarme na porta, coloquei meus documentos
e passaporte no cofre do banco, pedi demissão do emprego que eu mais amava,
vendi meu carro, andava com meu spray de pimenta em mãos, comprei passagem,
entreguei meu apartamento, doei quase todas as minhas coisas...
Pausa na estória: e o meu
vestido de noiva? O que fazer com meu vestido de noiva? Não cabia na mala de
volta, não dava tempo de revender... então vesti ele gloriosamente e tirei uma
foto, só para provar pra mim mesma que ele cabia de novo em mim, já estava até
meio larguinho... e triunfante coloquei o vestido, o sapato e o véu dentro da
caixa de doação. Foi libertador! Nada que emagrecer não ajude na sua estima.
Mas voltando... enfrentei um
juiz pela primeira vez na vida e sem advogado, achei que ia ou ser presa ou
morrer do coração. O ex abdicou da sua presença na sessão e pré-assinou a
papelada. O juiz me olha sério e pergunta: a Senhora preparou o seu divórcio
sozinha? Eu acho (acho) que consegui murmurar um “Sim, Senhor Juiz” e na minha
cabeça eu já ia ser presa, condenada e deportada sumariamente por ser sozinha,
mulher, latina, pedir um divórcio de um homem alto, loiro, dos olhos azuis, de
primeiro mundo que nunca me fez nada de mal e ainda teve a audácia de dispensar
um advogado (e quem sabe louca, já estava começando a ficar na dúvida)... Mas o
Senhor Juiz sorriu e disse “Parabéns, está tudo tão correto que estou
impressionado e só sei que não foi um advogado que redigiu porque eles não
perdem tempo colocando tanta informação, a Senhora colocou informação demais,
então vou passar um corretivo em dados confidenciais e seu processo não ficará
disponível para consulta online” e logo depois ele pronunciou “divórcio
concedido” e bateu o martelo, “a Senhorita pode se retirar”.
Sabe essas horas que você não
sabe de onde vem a sua força? Não me lembro nem como eu saí... só lembro de
duas coisas: 1) segurar meu choro até mais ou menos uma distância razoável do
Fórum porque fiquei com medo do Senhor Juiz ver e reconsiderar sua decisão 2)
me certificar de que o ex não estava lá fora me esperando com sua arma para me
matar. Quando tive certeza dessas duas
coisas, eu desabei na rua mesmo, chorei igual criança pequena, sem me importar com
nada (ok, de vez eu olhava pra ver se não tinha nenhuma polícia passando ou meu
ex). Fui trabalhar, me certifiquei que toda a papelada estava ok e marquei a passagem
para a próxima semana, tempo que precisava para terminar de entregar tudo. Tenho
certeza que meu chefe deve me achar uma maluca, doida varrida, mesmo me
deixando trabalhar até o ultimo dia. Nem sei como eu consegui trabalhar até o
último dia e covardemente não consegui me despedir do chefe (assim cara a cara,
deixei um textão, óbvio). Era Halloween na empresa e eu saí de fininho, no meio
da confusão do resultado do concurso de fantasia. Halloween era minha data
favorita nos EUA e era a primeira vez que eu não me fantasiava.
Entrei no avião aliviada de
voltar para o Brasil, me sentindo segura e salva, como se tivesse escapado de
um labirinto. Estava voltando para "casa", escutava Lulu Santos no
ipod repetidamente. Se você já viajou para o exterior vai me entender: não há
nada mais tranquilizador do que estar DENTRO DO AVIÃO, no vôo de volta, já decolado,
com seu passaporte seguro na sua mão. Quem me levou ao aeroporto? O ex! Fez
questão de me levar ao aeroporto para se despedir. Ele é daqueles raros
cavalheiros que abre a porta do carro... e o fez pela última vez. Carregou as
malas e o meu cachorro (sim, dessa casa eu só vou levar meu passaporte e o
cachorro... nova música sertaneja) até o guichê da cia aérea, aos prantos, sem
vergonha e só foi embora quando teve certeza de que realmente estava tudo bem e
eu ia embarcar. Engraçado, meu pai sempre dizia “homem bonzinho demais, desconfie
minha filha”. Será? Será que homem não pode ser bonzinho? Gentil? Cavalheiro?
Meu pai? Ele me buscou no
aeroporto quando cheguei aqui no Brasil também e só (e acho que ele estava com
saudade era do cachorro)... Ele nunca me perguntou por que eu ando por aí com
meu spray de pimenta na rua até hoje. Confesso que fiquei um pouquinho paranoica
e com certeza o Brasil não me faz me sentir a pessoa mais segura.
Onde está a violência? Aonde
está a ficção? Armas de fogo que dizem matar por amor... Palavras de fogo que
matam porque dizem que amam. E eu burra que acreditei nas palavras machistas e
preconceituosas de que mulher sozinha está desprotegida, ainda mais em outro
país, longe da família. Burra porque eu não acreditei em mim. Às vezes temos
que reavaliar nossos conceitos, formados na infância e revê-los com muito
cuidado. São eles que criam nossos
preconceitos, julgamentos, comportamentos e também no guiam quando agimos por
impulso, porque está lá no subconsciente já prontinho.
A solidão vai muito além das
fronteiras. A sua família também vai muito além do sangue e das fronteiras. A
sua casa é realmente aonde você nasceu? Ou como dizem é onde seu coração está?
De tudo isso ficou uma lição: euzinha sozinha e desprotegida? Ahhh, nunca mais
vou esquecer o sorriso do Senhor Juiz para mim... foi o dia que eu senti mais medo
na minha vida, mas também o dia em que descobri que sozinha eu me garanto... eu
me garanto, me basto, me viro, me protejo, me completo, me transbordo e muito
mais!
Obs.: nada contra um loiro ou
moreno, alto, bonito e sensual que queira “achar” que me protege também não,
viu? Eu deixo!
Obs. 2: não estou dizendo que
devemos ser seres individualistas, egoístas e solitários... não confundam!
Apenas acreditem mais em vocês mesmos, na sua capacidade, sem depender de outra
pessoa.


