Pensamentos Estrangeiros

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Divórcio, Distância, Casa e Coragem


Eu disse por telefone: "pai, vou me separar mesmo, no papel (porque fisicamente já estava separada há quase 1 ano). Não deu certo, fazer o quê?" Eu estava há 8 mil quilômetros de distância e ele me disse "então vem embora pra cá rápido, você não está segura aí sozinha agora que decidiu se separar." E eu escutei, né?! Intuição, conselho de pai, sei lá. Fiquei neurótica. Lembrei que o marido-agora-quase-ex tinha uma arma (que americano sulista não tem uma arma?). Lembrei que uma vez ele levantou o tom de voz pra mim (e foi por isso que pedi para que ele saísse do nosso apartamento... e ele saiu... chorando. E daí começou nosso processo de separação oficial, tipo casas separadas). Ele sempre respeitou minhas vontades e decisões. Mas o tal do conselho de pai me deixou neurótica, dei entrada nos papéis, pus um alarme na porta, coloquei meus documentos e passaporte no cofre do banco, pedi demissão do emprego que eu mais amava, vendi meu carro, andava com meu spray de pimenta em mãos, comprei passagem, entreguei meu apartamento, doei quase todas as minhas coisas...
 
Pausa na estória: e o meu vestido de noiva? O que fazer com meu vestido de noiva? Não cabia na mala de volta, não dava tempo de revender... então vesti ele gloriosamente e tirei uma foto, só para provar pra mim mesma que ele cabia de novo em mim, já estava até meio larguinho... e triunfante coloquei o vestido, o sapato e o véu dentro da caixa de doação. Foi libertador! Nada que emagrecer não ajude na sua estima.
 
Mas voltando... enfrentei um juiz pela primeira vez na vida e sem advogado, achei que ia ou ser presa ou morrer do coração. O ex abdicou da sua presença na sessão e pré-assinou a papelada. O juiz me olha sério e pergunta: a Senhora preparou o seu divórcio sozinha? Eu acho (acho) que consegui murmurar um “Sim, Senhor Juiz” e na minha cabeça eu já ia ser presa, condenada e deportada sumariamente por ser sozinha, mulher, latina, pedir um divórcio de um homem alto, loiro, dos olhos azuis, de primeiro mundo que nunca me fez nada de mal e ainda teve a audácia de dispensar um advogado (e quem sabe louca, já estava começando a ficar na dúvida)... Mas o Senhor Juiz sorriu e disse “Parabéns, está tudo tão correto que estou impressionado e só sei que não foi um advogado que redigiu porque eles não perdem tempo colocando tanta informação, a Senhora colocou informação demais, então vou passar um corretivo em dados confidenciais e seu processo não ficará disponível para consulta online” e logo depois ele pronunciou “divórcio concedido” e bateu o martelo, “a Senhorita pode se retirar”.
 
Sabe essas horas que você não sabe de onde vem a sua força? Não me lembro nem como eu saí... só lembro de duas coisas: 1) segurar meu choro até mais ou menos uma distância razoável do Fórum porque fiquei com medo do Senhor Juiz ver e reconsiderar sua decisão 2) me certificar de que o ex não estava lá fora me esperando com sua arma para me matar.  Quando tive certeza dessas duas coisas, eu desabei na rua mesmo, chorei igual criança pequena, sem me importar com nada (ok, de vez eu olhava pra ver se não tinha nenhuma polícia passando ou meu ex). Fui trabalhar, me certifiquei que toda a papelada estava ok e marquei a passagem para a próxima semana, tempo que precisava para terminar de entregar tudo. Tenho certeza que meu chefe deve me achar uma maluca, doida varrida, mesmo me deixando trabalhar até o ultimo dia. Nem sei como eu consegui trabalhar até o último dia e covardemente não consegui me despedir do chefe (assim cara a cara, deixei um textão, óbvio). Era Halloween na empresa e eu saí de fininho, no meio da confusão do resultado do concurso de fantasia. Halloween era minha data favorita nos EUA e era a primeira vez que eu não me fantasiava.
 
Entrei no avião aliviada de voltar para o Brasil, me sentindo segura e salva, como se tivesse escapado de um labirinto. Estava voltando para "casa", escutava Lulu Santos no ipod repetidamente. Se você já viajou para o exterior vai me entender: não há nada mais tranquilizador do que estar DENTRO DO AVIÃO, no vôo de volta, já decolado, com seu passaporte seguro na sua mão. Quem me levou ao aeroporto? O ex! Fez questão de me levar ao aeroporto para se despedir. Ele é daqueles raros cavalheiros que abre a porta do carro... e o fez pela última vez. Carregou as malas e o meu cachorro (sim, dessa casa eu só vou levar meu passaporte e o cachorro... nova música sertaneja) até o guichê da cia aérea, aos prantos, sem vergonha e só foi embora quando teve certeza de que realmente estava tudo bem e eu ia embarcar. Engraçado, meu pai sempre dizia “homem bonzinho demais, desconfie minha filha”. Será? Será que homem não pode ser bonzinho? Gentil? Cavalheiro?
Meu pai? Ele me buscou no aeroporto quando cheguei aqui no Brasil também e só (e acho que ele estava com saudade era do cachorro)... Ele nunca me perguntou por que eu ando por aí com meu spray de pimenta na rua até hoje. Confesso que fiquei um pouquinho paranoica e com certeza o Brasil não me faz me sentir a pessoa mais segura.
 
Onde está a violência? Aonde está a ficção? Armas de fogo que dizem matar por amor... Palavras de fogo que matam porque dizem que amam. E eu burra que acreditei nas palavras machistas e preconceituosas de que mulher sozinha está desprotegida, ainda mais em outro país, longe da família. Burra porque eu não acreditei em mim. Às vezes temos que reavaliar nossos conceitos, formados na infância e revê-los com muito cuidado.  São eles que criam nossos preconceitos, julgamentos, comportamentos e também no guiam quando agimos por impulso, porque está lá no subconsciente já prontinho.
 
A solidão vai muito além das fronteiras. A sua família também vai muito além do sangue e das fronteiras. A sua casa é realmente aonde você nasceu? Ou como dizem é onde seu coração está? De tudo isso ficou uma lição: euzinha sozinha e desprotegida? Ahhh, nunca mais vou esquecer o sorriso do Senhor Juiz para mim... foi o dia que eu senti mais medo na minha vida, mas também o dia em que descobri que sozinha eu me garanto... eu me garanto, me basto, me viro, me protejo, me completo, me transbordo e muito mais!
 
Obs.: nada contra um loiro ou moreno, alto, bonito e sensual que queira “achar” que me protege também não, viu? Eu deixo!
 
Obs. 2: não estou dizendo que devemos ser seres individualistas, egoístas e solitários... não confundam! Apenas acreditem mais em vocês mesmos, na sua capacidade, sem depender de outra pessoa.
 
 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Minha Teoria do Fio de Cabelo Branco

Ei, você que tem 30 e poucos anos (ou menos) e vê um fio de cabelo branco na cabeça e calmamente o deixa lá só porquê te disseram que "se arrancar, nasce mais"... você mesmo!


Tenho 2 coisas pra te dizer:


1) Não confio em você e na sua calma subentendida, muito estranho...
2) Vai nascer mais fio branco de qualquer jeito, então arranca logo esse ser que não te pertence!!!


E tenho dito!




terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Sobre malas, viagens e desapego.


Ontem eu li que “o desapego é muito mais do que se decepcionar muito na vida e agora decidir se valorizar. Desapego é saber o que deve ser mantido e o que nunca deveria ter entrado na sua vida”. Mas eu vou além, é saber também aquilo que não faz mais sentido ficar na sua vida, pelo bem ou pelo mal. Entre as minhas idas e vindas, viagens, intercâmbios, mudanças de endereço, de emprego, de país, de carreira, de estado civil, de cor de cabelo... etc... etc.. etc... tive que abrir mão de muitas coisas, pessoas, lugares... às vezes, simplesmente porque não cabia na mala... e se tem um conselho que eu posso lhe dar com toda propriedade é: nunca viaje com uma mala que você não consiga carregar sozinho (no sentido literal e figurado), nem sempre tem carrinho de bagagem ou pessoas bondosas para lhe ajudar ou simplesmente porque vai custar caro demais. E separar o que fica do que vai é difícil pra caramba e dói, dói muito. MUITO!

E na maioria das vezes eu tive que escolher rápido, foi quase como se chegasse alguém da defesa civil e dissesse: você precisa evacuar sua casa imediatamente, pegue apenas seus principais pertences e saia!

Cada um tem um apego diferente. Eu, por exemplo, amava meus livros, CDs e DVDs, que significam peso. Já sabe o que aconteceu, né? Pois é, em algum momento da minha vida tive que deixá-los todos (quase todos ;-) ) para trás, eu não podia exceder minha mísera franquia de bagagem. Foram ficando por aí. Qualquer dia desses acho que vou vê-los sendo vendidos nesses programas americanos de Garage Sale na TV: coleção louca de livros, CDs e DVDs, tudo por US$1,00 (ai meu coração!). Meu consolo é que existe Spotify, Youtube e o meu amado HD externo com um backup de tudo. Ainda sim, dói quando olho para uma estante vazia e imagino que lá poderia estar minha linda e eclética coleção.

Já a minha coleção de shot glasses sobreviveu a tudo isso bravamente, com algumas baixas. Prioridades, né pessoas? Se bem que acho que na próxima (porque sempre haverá uma próxima), eles também terão que ficar para trás. Já estou prevendo isso e trabalhando o meu emocional. Alguém aí interessado em comprar uma coleção de shot glasses?

Já perdi a conta de quantas bolsas, sapatos e roupas favoritos eu vendi, revendi ou simplesmente doei. Eu AMO bolsas, tinha uma de cada cor, para cada ocasião. Hoje me limito a uma bolsa do dia a dia e duas bolsas pequenas. Quem diria, hein Dona Sarah? A mesma bolsa todo dia! Que mudança radical! Sapatos? Era um scarpin de cada cor, por favor. Hoje meus sapatos cabem todos em duas prateleiras pequenas e o scarpin atual virou peça única, preto, básico. Na verdade, o que ocupa mais espaço no meu guarda roupa hoje são as malas, como uma lembrança diária de que preciso que tudo caiba dentro delas, sem aviso prévio. Falar das coisas materiais parece fácil, mas olhe para o seu quarto nesse instante e imagine que você só tem DUAS malas para colocar tudo (EU DISSE TUDO) o que você tem dentro delas? Aquele seu edredom favorito? Não cabe! Seu bichinho de pelúcia de infância? Provavelmente não. Nossa, acabei de me lembrar do quanto eu chorei quando tive que me desfazer da minha coleção de Barbies! Pois é, parece uma cena ridícula (afirmando: foi uma cena ridícula), você tem 30 anos e está chorando abraçada às suas Barbies. Mas tudo bem, elas fizeram a alegria de algumas crianças pelo mundo... porquê claro que eu não me desfiz das minhas bonecas assim de uma só vez... foi uma separação repartida, planejada em fases e etapas, muitas etapas. E mesmo assim, a minha Barbie favorita eu dei estrategicamente para minha afilhada, só pra tipo assim, rever de vez em quando. E claro, vou a lojas de brinquedos e fico namorando aquelas que seriam um dia parte da minha coleção que já não existe mais, e sou criança de novo só por algumas horas.

E tem também o desapego de lugares. Você já foi a algum lugar que amou, mas você tinha certeza de que nunca mais voltaria lá, por qualquer que seja o motivo? É uma mistura de Carpe Diem, vida louca com uma nostalgia já antecipada que não cabem em um milhão de fotos ou vídeos. E a comida? Ou um restaurante? Aquele Milk-Shake que só é gostoso porque você está em Nova Iorque. Aquele biscoito de polvilho que só a sua avó sabia fazer? E aí vem o desapego das pessoas e são tantos os motivos: geográficos, ideológicos, tempo, desencontro, destino ou qualquer outro nome que você queira dar. E olha que acredito em vida após a morte, então não falo da separação física, porque essa, acredito eu, seja apenas temporária. Já tenho até um amor combinado para a próxima encarnação... é pra rir mas é sério, a gente combinou muito mal o tempo nessa vida (mas isso é texto pra depois). E morando fora, viajando sempre, claro que, cada vez que o avião decolava, eu fazia uma lista de possíveis pessoas que eu poderia ter encontrado pela “última vez”, era um mico gigante porque eu chorava da fila de embarque até provavelmente a hora que eu finalmente conseguia dormir. Mas desapegar é muito mais que separar e é muito mais difícil, é entender que naquele momento, aquela pessoa não vai fazer parte da sua vida, é lembrar-se de uma situação engraçada e não mandar uma mensagem dizendo "lembrei-me de você”, é razão, é emoção, é maturidade. E às vezes, você não é o santinho da estória que está se livrando de alguém que te fazia mal não! Às vezes, é você que já entendeu o que é o amor verdadeiro e não simplesmente posse, apego e que você é o problema, isso é o que eu chamo de auto desapego. Amor é desapego.

E como diz aquela música da Ivete: “Eu faria tudo pra não te perder assim, mas o dia vem... e deixo você ir...”

Recentemente eu descobri como embalar a vácuo sua bagagem :-) (sério, o negócio é mágico) e me sinto uma traidora de mim mesma. Cadê aquela pessoa que pregava que se precisa de pouco pra viver? Consumismo consciente? Guarda-roupa cápsula? Comprar um cosmético quando o outro acaba? Essa Sarah continua aqui... só que agora ela leva seu edredom predileto pra todos os lugares. Mas saber que as coisas vêm e vão, pessoas entram e saem da sua vida, que o progresso é inevitável e que o desapego deixa a alma e as malas muito mais leves... é uma experiência dolorida, mas transformadora. Então lhe faço esse convite: olhe para sua casa, para seu quarto, para seus sentimentos e imagine que você só tem duas malas de 32 kg para colocar dentro tudo o que deseja. E aí, o que vai? O que fica?