Pensamentos Estrangeiros

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Sobre malas, viagens e desapego.


Ontem eu li que “o desapego é muito mais do que se decepcionar muito na vida e agora decidir se valorizar. Desapego é saber o que deve ser mantido e o que nunca deveria ter entrado na sua vida”. Mas eu vou além, é saber também aquilo que não faz mais sentido ficar na sua vida, pelo bem ou pelo mal. Entre as minhas idas e vindas, viagens, intercâmbios, mudanças de endereço, de emprego, de país, de carreira, de estado civil, de cor de cabelo... etc... etc.. etc... tive que abrir mão de muitas coisas, pessoas, lugares... às vezes, simplesmente porque não cabia na mala... e se tem um conselho que eu posso lhe dar com toda propriedade é: nunca viaje com uma mala que você não consiga carregar sozinho (no sentido literal e figurado), nem sempre tem carrinho de bagagem ou pessoas bondosas para lhe ajudar ou simplesmente porque vai custar caro demais. E separar o que fica do que vai é difícil pra caramba e dói, dói muito. MUITO!

E na maioria das vezes eu tive que escolher rápido, foi quase como se chegasse alguém da defesa civil e dissesse: você precisa evacuar sua casa imediatamente, pegue apenas seus principais pertences e saia!

Cada um tem um apego diferente. Eu, por exemplo, amava meus livros, CDs e DVDs, que significam peso. Já sabe o que aconteceu, né? Pois é, em algum momento da minha vida tive que deixá-los todos (quase todos ;-) ) para trás, eu não podia exceder minha mísera franquia de bagagem. Foram ficando por aí. Qualquer dia desses acho que vou vê-los sendo vendidos nesses programas americanos de Garage Sale na TV: coleção louca de livros, CDs e DVDs, tudo por US$1,00 (ai meu coração!). Meu consolo é que existe Spotify, Youtube e o meu amado HD externo com um backup de tudo. Ainda sim, dói quando olho para uma estante vazia e imagino que lá poderia estar minha linda e eclética coleção.

Já a minha coleção de shot glasses sobreviveu a tudo isso bravamente, com algumas baixas. Prioridades, né pessoas? Se bem que acho que na próxima (porque sempre haverá uma próxima), eles também terão que ficar para trás. Já estou prevendo isso e trabalhando o meu emocional. Alguém aí interessado em comprar uma coleção de shot glasses?

Já perdi a conta de quantas bolsas, sapatos e roupas favoritos eu vendi, revendi ou simplesmente doei. Eu AMO bolsas, tinha uma de cada cor, para cada ocasião. Hoje me limito a uma bolsa do dia a dia e duas bolsas pequenas. Quem diria, hein Dona Sarah? A mesma bolsa todo dia! Que mudança radical! Sapatos? Era um scarpin de cada cor, por favor. Hoje meus sapatos cabem todos em duas prateleiras pequenas e o scarpin atual virou peça única, preto, básico. Na verdade, o que ocupa mais espaço no meu guarda roupa hoje são as malas, como uma lembrança diária de que preciso que tudo caiba dentro delas, sem aviso prévio. Falar das coisas materiais parece fácil, mas olhe para o seu quarto nesse instante e imagine que você só tem DUAS malas para colocar tudo (EU DISSE TUDO) o que você tem dentro delas? Aquele seu edredom favorito? Não cabe! Seu bichinho de pelúcia de infância? Provavelmente não. Nossa, acabei de me lembrar do quanto eu chorei quando tive que me desfazer da minha coleção de Barbies! Pois é, parece uma cena ridícula (afirmando: foi uma cena ridícula), você tem 30 anos e está chorando abraçada às suas Barbies. Mas tudo bem, elas fizeram a alegria de algumas crianças pelo mundo... porquê claro que eu não me desfiz das minhas bonecas assim de uma só vez... foi uma separação repartida, planejada em fases e etapas, muitas etapas. E mesmo assim, a minha Barbie favorita eu dei estrategicamente para minha afilhada, só pra tipo assim, rever de vez em quando. E claro, vou a lojas de brinquedos e fico namorando aquelas que seriam um dia parte da minha coleção que já não existe mais, e sou criança de novo só por algumas horas.

E tem também o desapego de lugares. Você já foi a algum lugar que amou, mas você tinha certeza de que nunca mais voltaria lá, por qualquer que seja o motivo? É uma mistura de Carpe Diem, vida louca com uma nostalgia já antecipada que não cabem em um milhão de fotos ou vídeos. E a comida? Ou um restaurante? Aquele Milk-Shake que só é gostoso porque você está em Nova Iorque. Aquele biscoito de polvilho que só a sua avó sabia fazer? E aí vem o desapego das pessoas e são tantos os motivos: geográficos, ideológicos, tempo, desencontro, destino ou qualquer outro nome que você queira dar. E olha que acredito em vida após a morte, então não falo da separação física, porque essa, acredito eu, seja apenas temporária. Já tenho até um amor combinado para a próxima encarnação... é pra rir mas é sério, a gente combinou muito mal o tempo nessa vida (mas isso é texto pra depois). E morando fora, viajando sempre, claro que, cada vez que o avião decolava, eu fazia uma lista de possíveis pessoas que eu poderia ter encontrado pela “última vez”, era um mico gigante porque eu chorava da fila de embarque até provavelmente a hora que eu finalmente conseguia dormir. Mas desapegar é muito mais que separar e é muito mais difícil, é entender que naquele momento, aquela pessoa não vai fazer parte da sua vida, é lembrar-se de uma situação engraçada e não mandar uma mensagem dizendo "lembrei-me de você”, é razão, é emoção, é maturidade. E às vezes, você não é o santinho da estória que está se livrando de alguém que te fazia mal não! Às vezes, é você que já entendeu o que é o amor verdadeiro e não simplesmente posse, apego e que você é o problema, isso é o que eu chamo de auto desapego. Amor é desapego.

E como diz aquela música da Ivete: “Eu faria tudo pra não te perder assim, mas o dia vem... e deixo você ir...”

Recentemente eu descobri como embalar a vácuo sua bagagem :-) (sério, o negócio é mágico) e me sinto uma traidora de mim mesma. Cadê aquela pessoa que pregava que se precisa de pouco pra viver? Consumismo consciente? Guarda-roupa cápsula? Comprar um cosmético quando o outro acaba? Essa Sarah continua aqui... só que agora ela leva seu edredom predileto pra todos os lugares. Mas saber que as coisas vêm e vão, pessoas entram e saem da sua vida, que o progresso é inevitável e que o desapego deixa a alma e as malas muito mais leves... é uma experiência dolorida, mas transformadora. Então lhe faço esse convite: olhe para sua casa, para seu quarto, para seus sentimentos e imagine que você só tem duas malas de 32 kg para colocar dentro tudo o que deseja. E aí, o que vai? O que fica?


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