Ontem eu li que “o desapego é muito mais do que se
decepcionar muito na vida e agora decidir se valorizar. Desapego é saber o que
deve ser mantido e o que nunca deveria ter entrado na sua vida”. Mas eu vou
além, é saber também aquilo que não faz mais sentido ficar na sua vida, pelo
bem ou pelo mal. Entre as minhas idas e vindas, viagens, intercâmbios, mudanças
de endereço, de emprego, de país, de carreira, de estado civil, de cor de
cabelo... etc... etc.. etc... tive que abrir mão de muitas coisas, pessoas,
lugares... às vezes, simplesmente porque não cabia na mala... e se tem um
conselho que eu posso lhe dar com toda propriedade é: nunca viaje com uma mala
que você não consiga carregar sozinho (no sentido literal e figurado), nem
sempre tem carrinho de bagagem ou pessoas bondosas para lhe ajudar ou
simplesmente porque vai custar caro demais. E separar o que fica do que vai é
difícil pra caramba e dói, dói muito. MUITO!
E na maioria das vezes eu tive que escolher rápido, foi quase
como se chegasse alguém da defesa civil e dissesse: você precisa evacuar sua
casa imediatamente, pegue apenas seus principais pertences e saia!
Cada um tem um apego diferente. Eu, por exemplo, amava meus
livros, CDs e DVDs, que significam peso. Já sabe o que aconteceu, né? Pois é,
em algum momento da minha vida tive que deixá-los todos (quase todos ;-) ) para
trás, eu não podia exceder minha mísera franquia de bagagem. Foram ficando por
aí. Qualquer dia desses acho que vou vê-los sendo vendidos nesses programas
americanos de Garage Sale na TV: coleção louca de livros, CDs e DVDs, tudo por
US$1,00 (ai meu coração!). Meu consolo é que existe Spotify, Youtube e o meu amado
HD externo com um backup de tudo. Ainda sim, dói quando olho para uma estante
vazia e imagino que lá poderia estar minha linda e eclética coleção.
Já a minha coleção de shot
glasses sobreviveu a tudo isso bravamente, com algumas baixas. Prioridades,
né pessoas? Se bem que acho que na próxima (porque sempre haverá uma próxima),
eles também terão que ficar para trás. Já estou prevendo isso e trabalhando o
meu emocional. Alguém aí interessado em comprar uma coleção de shot glasses?
Já perdi a conta de quantas bolsas, sapatos e roupas
favoritos eu vendi, revendi ou simplesmente doei. Eu AMO bolsas, tinha uma de
cada cor, para cada ocasião. Hoje me limito a uma bolsa do dia a dia e duas
bolsas pequenas. Quem diria, hein Dona Sarah? A mesma bolsa todo dia! Que
mudança radical! Sapatos? Era um scarpin de cada cor, por favor. Hoje meus
sapatos cabem todos em duas prateleiras pequenas e o scarpin atual virou peça
única, preto, básico. Na verdade, o que ocupa mais espaço no meu guarda roupa
hoje são as malas, como uma lembrança diária de que preciso que tudo caiba
dentro delas, sem aviso prévio. Falar das coisas materiais parece fácil, mas
olhe para o seu quarto nesse instante e imagine que você só tem DUAS malas para
colocar tudo (EU DISSE TUDO) o que você tem dentro delas? Aquele seu edredom
favorito? Não cabe! Seu bichinho de pelúcia de infância? Provavelmente não.
Nossa, acabei de me lembrar do quanto eu chorei quando tive que me desfazer da
minha coleção de Barbies! Pois é, parece uma cena ridícula (afirmando: foi uma
cena ridícula), você tem 30 anos e está chorando abraçada às suas Barbies. Mas tudo
bem, elas fizeram a alegria de algumas crianças pelo mundo... porquê claro que
eu não me desfiz das minhas bonecas assim de uma só vez... foi uma separação
repartida, planejada em fases e etapas, muitas etapas. E mesmo assim, a minha
Barbie favorita eu dei estrategicamente para minha afilhada, só pra tipo assim,
rever de vez em quando. E claro, vou a lojas de brinquedos e fico namorando aquelas
que seriam um dia parte da minha coleção que já não existe mais, e sou criança
de novo só por algumas horas.
E tem também o desapego de lugares. Você já foi a algum lugar
que amou, mas você tinha certeza de que nunca mais voltaria lá, por qualquer
que seja o motivo? É uma mistura de Carpe
Diem, vida louca com uma nostalgia já antecipada que não cabem em um milhão
de fotos ou vídeos. E a comida? Ou um restaurante? Aquele Milk-Shake que só é
gostoso porque você está em Nova Iorque. Aquele biscoito de polvilho que só a
sua avó sabia fazer? E aí vem o desapego das pessoas e são tantos os motivos:
geográficos, ideológicos, tempo, desencontro, destino ou qualquer outro nome
que você queira dar. E olha que acredito em vida após a morte, então não falo da
separação física, porque essa, acredito eu, seja apenas temporária. Já tenho
até um amor combinado para a próxima encarnação... é pra rir mas é sério, a
gente combinou muito mal o tempo nessa vida (mas isso é texto pra depois). E
morando fora, viajando sempre, claro que, cada vez que o avião decolava, eu
fazia uma lista de possíveis pessoas que eu poderia ter encontrado pela “última
vez”, era um mico gigante porque eu chorava da fila de embarque até
provavelmente a hora que eu finalmente conseguia dormir. Mas desapegar é muito mais
que separar e é muito mais difícil, é entender que naquele momento, aquela
pessoa não vai fazer parte da sua vida, é lembrar-se de uma situação engraçada
e não mandar uma mensagem dizendo "lembrei-me de você”, é razão, é emoção,
é maturidade. E às vezes, você não é o santinho da estória que está se livrando
de alguém que te fazia mal não! Às vezes, é você que já entendeu o que é o amor
verdadeiro e não simplesmente posse, apego e que você é o problema, isso é o
que eu chamo de auto desapego. Amor é desapego.
E como diz aquela música da Ivete: “Eu faria tudo pra não te
perder assim, mas o dia vem... e deixo você ir...”
Recentemente eu descobri como embalar a vácuo sua bagagem :-) (sério, o negócio é mágico) e me
sinto uma traidora de mim mesma. Cadê aquela pessoa que pregava que se precisa
de pouco pra viver? Consumismo consciente? Guarda-roupa cápsula? Comprar um
cosmético quando o outro acaba? Essa Sarah continua aqui... só que agora ela
leva seu edredom predileto pra todos os lugares. Mas saber que as coisas vêm e
vão, pessoas entram e saem da sua vida, que o progresso é inevitável e que o desapego
deixa a alma e as malas muito mais leves... é uma experiência dolorida, mas
transformadora. Então lhe faço esse convite: olhe para sua casa, para seu
quarto, para seus sentimentos e imagine que você só tem duas malas de 32 kg
para colocar dentro tudo o que deseja. E aí, o que vai? O que fica?

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